terça-feira, junho 29, 2004

Laranjas?


segunda-feira, junho 28, 2004

Carros Usados


Você compraria um carro usado a este homem?

Depende.

Se você for do género ponderado, que toma decisões com tempo, provavelmente não. É que, entretanto, ele já se fartou do stand e mudou de poiso.

Se ele o(a) convenceu, pode acontecer que:
- O carro seja muito vistoso, ideal para levar alguém a passear mas que, pura e simplesmente, não funciona;
- O carro polui tanto que precisa de um estudo de impacto ambiental, que ele não fez, e a polícia vai mandá-lo parar a meio da viagem;
- Não consiga tirar o carro porque ele faz um enorme cartaz mostrando como estão bonitas as pedras da calçada em frente do stand;
- Tenha oferecido o tunning do carro com um dos maiores peritos mundiais no assunto e depois os deixe a ambos pendurados quando percebe quanto a coisa custa.

Sim, há stands da concorrência ao lado. São muito menos vistosos, não sabem vender e os carros não são melhores. Os mais frenéticos querem vender-lhe um Traban. Aconselho-o a abster-se de comprar carro. Ande de transportes públicos ou compre uma trotinete eléctrica.

Latimeria chalumnae & Epinephelus aeneus

O Blasfémias, cita Le Figaro, Le Monde e o Liberation, que gostam de Durão Barroso por ele falar fluentemente francês, e acha um critério pouco exigente.

Pelo contrário. O rolo compressor do inglês, acelerado pelas tecnologias de informação, acabou rapidamente com a "menina que toca piano e fala francês". Hoje, todo o mundo é ocupado pelo inglês... Todo? Não! Um pequeno país de irredutíveis gauleses resiste ainda e sempre ao invasor! E quando descobre que um potencial presidente da comissão europeia fala francês é uma festa, como se um primo desavindo tivesse chegado à aldeia iludindo a vigilância dos campos de Babaorum, Aquarium, Laudanum et Petitbonum.

Há 60 anos, foi descoberto o celacanto ("Latimeria chalumnae"), um peixe da época dos dinossauros e que, na teoria, estaria extinto. Foi um grande acontecimento científico.

Durão Barroso é o celacanto dos franceses, alguém que, contra todas as probabilidades, sabe falar francês sem ser francês (Mário Soares não conta, naturalmente).

Não quero entrar na estafada história do cherne ("Epinephelus aeneus"), mas Durão parece confirmar a sua vocação piscícola.

sábado, junho 26, 2004

Nostradamus

As profecias de Nostradamus falam, numa passagem particularmente obscura, numa tragédia de um povo até agora não identificado que se daria quando "o calvo pintas encontrar o jardim na estrela cairão as bandeiras estimadas e a história recomeça".

O "calvo pintas" poderá ser Pedro Santana Lopes. As "bandeiras estimadas" referem-se ao Euro. A "história recomeça" é a formulação habitual de Nostradamus para uma grande tragédia. O "jardim na estrela" é mais críptico, mas podemos argumentar que "jardim" é na verdade Jardim, isto é, Alberto João, enquanto a estrela é, para todos so efeitos, a estrela de Belém. Isto parece significar que Alberto João Jardim será o próximo presidente da república, e Pedro Santana Lopes primeiro-ministro. E será neste período que se dará a tragédia. Mas isto, não precisamos de Nostradamos para nos dizer.

Valores tradicionais

Penso que se Pedro Santana Lopes vier a ser primeiro-ministro devemos recuperar alguns valores tradicionais, como o conceito de "choldra" que, pressinto-o, é adequado a um país governado por alguém com o seu perfil de estadista.

"Difficile est satiram non scribere." (Difícil é não escrever sátiras)
Juvenal

A queda

Há aquela história do tipo que se atira do alto de um prédio e, ao passar por cada andar, pensa "por enquanto tudo bem, por enquanto tudo bem".

Relatos mais detalhados afirmam que o indivíduo levava uma bandeira portuguesa na mão e tinha umas pinturas de guerra na cara.

Aparentemente, a queda deveu-se a um incontrolável ataque de riso quando a vítima soube qual seria o novo primeiro-ministro de Portugal, o que o fez rebolar pelo telhado.

Já perdemos

Deve ser ignorância minha mas, assim de repente, não encontro nova Aljubarrota para confirmar ou mapa cor de rosa para vingar. Tivemos algumas escaramuças com os holandeses no Brasil, mas ganhámos (infelizmente para o Brasil) e, embora na origem da Indonésia, não me parece que os possamos culpar dos problemas com Timor. Quanto aos suecos, não recordo qualquer problema com os Vikings, e até nos fizeram o favor de abrir uma loja Ikea em Lisboa.

Com uma auto-estima rasca feita de desagravos milenares em campos de futebol, não vejo como poderemos ganhar a holandeses ou suecos que, aparentemente, até são uns tipos porreiros.

Não há por aí algum historiador desempregado que queira fazer o favor de encontrar uma pulhice à espera da devida vingança?

(Dão-se alvíssaras.)

quinta-feira, junho 24, 2004

Nacionalismos

A propósito do excesso de nacionalismo criticado em muitos posts (como este), gostaria de distinguir alguns conceitos:

Nacionalismo barato: É assumidamente de má qualidade, mas é o adequado ao poder de compra médio, e não exige grande esforço de reflexão. É muito fácil de usar, porque já é vendido em kits. Trata-se muitas vezes do mesmo produto que é vendido nas lojas de marca por dez vezes mais.

Nacionalismo de contrafacção: É um produto rasca imitando ilegalmente o nacionalismo de marca. Muito comum entre a opinião publicada.

Nacionalismo de marca: Já não se encontram fabricantes deste nacionalismo em Portugal, excepto em pequenas produções artesanais para autoconsumo, em áreas remotas do país. O que se conhece é a partir de descrições da utilização desse produto em outros países.

(H)ino

Apesar de tudo, fico contente por saber que há gente à procura do "ino nacional portugues" no Google.

De facto, não podemos dizer que temos um hino com H grande. Diria mesmo que o nosso hino tem um h bastante pequenino, que mal se vê, mas não seria extremista ao ponto de o eliminar tout court.

A não ser que o hino seja confundido com a cadeia de supermercados Ino, em particular (e com a distribuição em geral), o que explicaria muita coisa.

Hoje, depois de hastearmos o logotipo, e cantarmos o Ino, espero que o Nuno Gomes possa meter de novo um Pingo Doce na baliza da concorrência, para deleite do Continente.

domingo, junho 20, 2004

Iberia

sexta-feira, junho 18, 2004

Um país, dois sistemas

Pois. Eu também já disse isso, António. Todos dissemos isso em algum momento das nossas vidas. E depois, o que resta? Um fogacho efémero, uma questão estilística, de oratória inconsequente.

Não há esperança, porque não há desejo de mudança, e por isso, não há faca. Acredita: somos felizes assim, num país, dois sistemas: uma elite medíocre e um povo analfabeto, de costas voltadas, ambos tratando das suas vidinhas, um ignorando ostensivamente o outro.

Não há movimentos colectivos nem (brrr) "revoluções". A revolução é interior. É ler mais clássicos, comer mais peixe, ouvir mais Bach, apagar a televisão, dar mais passeios a pé junto ao mar, ter mais prazer no que se faz, falar mais com estrangeiros, envolver-se mais com a comunidade local, voltar à família e ter uma ética decente. Por exemplo.

Ah, a propósito, mas afinal quem é esse tal de "povo"?

Childe Harold's pilgrimage

Estranho. Não encontro traduções de Lord Byron. Aparentemente, os portugueses não aceitam críticas construtivas.

(Childe Harold's pilgrimage é o poema onde Byron desanca os portugueses com versos como os famosos:

Poor, paltry slaves! yet born 'midst noblest scenes--
Why, Nature, waste thy wonders on such men?


Ou, sobre Lisboa:

But whoso entereth within this town,
That, sheening far, celestial seems to be,
Disconsolate will wander up and down,
'Mid many things unsightly to strange ee;
For hut and palace show like filthily:
The dingy denizens are rear'd in dirt;
Ne personage of high or mean degree
Doth care for cleanness of surtout or shirt,
Though silent with Egypt's plague, unkempt, unwash'd, unhurt.


A versão integral do poema pode ser encontrada aqui. As partes picantes (sobre Portugal e, já agora, sobre Espanha) estão no Canto 1

A descrição de Espanha é bélica e heróica, o que contrasta com o que ele escreve sobre Portugal. Mas parece que em Espanha não levou um par de estalos de um marido ciumento. Deve ter ido prevenido de que lá a coisa meteria sangue, dele).

quarta-feira, junho 16, 2004

Efeito Axe

"Was ever woman in this humour woo'd?
Was ever woman in this humour won?
I'll have her; but I will not keep her long.
What! I, that kill'd her husband and his father,
To take her in her heart's extremest hate,
With curses in her mouth, tears in her eyes,
The bleeding witness of her hatred by;
Having God, her conscience, and these bars
against me,
And I nothing to back my suit at all,
But the plain devil and dissembling looks,
And yet to win her, all the world to nothing!
Ha!
Hath she forgot already that brave prince,
Edward, her lord, whom I, some three months since,
Stabb'd in my angry mood at Tewksbury?
A sweeter and a lovelier gentleman,
Framed in the prodigality of nature,
Young, valiant, wise, and, no doubt, right royal,
The spacious world cannot again afford
And will she yet debase her eyes on me,
That cropp'd the golden prime of this sweet prince,
And made her widow to a woful bed?
On me, whose all not equals Edward's moiety?
On me, that halt and am unshapen thus?
My dukedom to a beggarly denier,
I do mistake my person all this while:
Upon my life, she finds, although I cannot,
Myself to be a marvellous proper man.
I'll be at charges for a looking-glass,
And entertain some score or two of tailors,
To study fashions to adorn my body:
Since I am crept in favour with myself,
Will maintain it with some little cost.
But first I'll turn yon fellow in his grave;
And then return lamenting to my love.
Shine out, fair sun, till I have bought a glass,
That I may see my shadow as I pass.
"

Richard III, cena II

O Redentor


Andrei Rublev, 1409.

Bloomsday


O Portugal perfeito chamar-se-ia Irlanda.

domingo, junho 13, 2004

Delfos


sábado, junho 12, 2004

Bandeiras

Quantos contentores do lixo serão necessários para, terminada a festa, recolher as bandeiras?

(A bandeira, tal como o hino, não tem, para os portugueses, qualquer significado simbólico de identidade colectiva. Os únicos objectos simbólicos que os portugueses reconhecem e apreciam/invejam são individuais: o telemóvel, o carro...)

sexta-feira, junho 11, 2004

Fruta Almeidas

I do not approve of anything that tampers with natural ignorance. Ignorance is like a delicate exotic fruit; touch it and the bloom is gone. The whole theory of modern education is radically unsound. Fortunately in England, at any rate, education produces no effect whatsoever. If it did, it would prove a serious danger to the upper classes, and probably lead to acts of violence in Grosvenor Square.

Oscar Wilde, para deixar descansar o Eça.

O meu voto

Acho que vou votar em branco (é uma coisa muito Zen, percebem?).

quinta-feira, junho 10, 2004

Cegos

O cego à porta do centro comercial já não toca acordeão. Mantém-no ali, ao seu lado, símbolo de qualquer coisa que para ele faz algum sentido. Mas não o toca. Nem lhe toca.

Agora tem um leitor de cassetes onde toca as suas gravações do acordeão. Ninguém nota a diferença, o efeito é o mesmo, e é muito menos cansativo. Só lhe falta um bocadinho de marketing.

Somos todos iguais.

sábado, junho 05, 2004

Consumo

Chegou a hora de abertura do hipermercado. Os produtos, que saltaram das prateleiras e passaram a noite em jovial confraternização, regressaram aos seus lugares e preparam-se para mais um dia em parada. Os novos, pouco habituados ao ambiente, contêm o riso com dificuldade. Aos mais velhos, a vida ensinou a postura grave mais conveniente, que alguns matizam com cinismo (o Sunny Delight, por exemplo), outros com desdém (todos os light), outros com compaixão, apesar de tudo (o Ovomaltine).

Dentro de segundos, quando as portas abrirem, hordas de humanos vão entrar para "fazer compras", actividade que consiste na aquisição de um conjunto de produtos, cada um dos quais escolhido com uma certa racionalidade, seja ela qual for. A convicção dos consumidores de que estão a escolher um produto é, para os produtos, uma ideia tão bizarra e hilariante que basta a sua menção a meio da noite para que o hipermercado seja sacudido por um frémito geral, seguido de outro, e mais outro. Isto por vezes dura horas. Todo o edifício range. Os iogurtes e os refrigerantes são particularmente sensíveis à piada e, não raro, rebentam de puro gozo. Todas as manhãs os corredores são minunciosamente vistoriados para serem apagados quaisquer traços da diversão nocturna.

Os produtos não percebem como os humanos podem ser tão... tão... tão-difícil-que-é-encontrar-uma-palavra-para-os-descrever. Andam por ali num corrupiupiupiu, galinhas tontas, escolhendo cada grão para encher o papo (pára que eu já não aguento, articula convulsivamente um Danoninho lá ao fundo).

Os consumidores realmente acham que estão a escolher, e não percebem que são os produtos que os estão a escolher a eles. Não percebem que, quando olham para um produto, estão a olhar para um profissional, treinado e aperfeiçoado durante meses ou anos nas melhores escolas, com o fim último de escolher o consumidor que mais lhe agrada. O killer instinct contra a pacatez ignorante. Cada dia num hipermercado é uma hecatombe sem honras de abertura no telejornal.

Se não acredita, faça a seguinte experiência: pegue no pacote de leite especial cálcio que escolheu para a criançada, olhe-o, olhos nos olhos, se conseguir, e diga-lhe com convicção: "eu não sou influenciado pela publicidade" e "marketing? o que é isso?". Um quase imperceptível frémito sacode o pacote. Pode abri-lo: está morto. Qualquer destas frases é uma piada mortal a que nenhum produto resiste. Agora, deixe de dizer disparates e vá escolher (hihihihhiahahahaha) outro pacote.

terça-feira, junho 01, 2004

Cadeia alimentar

"Esse é o problema das elites portuguesas: elas gostariam de ter outro país. Um país mais culto e mais educado, mais 'moderno' e sem bolsas de pobreza dramáticas. Por isso, em vez de aborrecerem os portugueses, deviam primeiro olhar para si próprias. Para a televisão que criaram, para a escola que permitiram, para a arrogância da vida política, para os maus exemplos empresariais."

O Aviz acha que as elites portuguesas gostariam de ter outro país. Ora precisamente, elas não querem ter outro país. Nunca quiseram. Um pais "mais culto e mais educado" implicaria alguma renovação das elites, quando os seus elementos mais medíocres fossem substituídos, por via do mérito, pelos elementos mais capazes do "povo" (sim, o modelo é muito simples, eu sei). Ora as nossas bestiais elites estão claramente ao nível do instinto animal da auto-preservação. Na hierarquia de necessidades de Maslow, elas estão, quanto muito, no segundo patamar, a segurança, a protecção contra as ameaças externas.

Por isso, o conceito de "país mais culto e educado" é, para as elites portuguesas, é algo absolutamente ininteligível. Os seus filhos mentecaptos são, antes de tudo, seus filhos, e há que proteger a ninhada. Não se protege uma ninhada alimentando os potenciais predadores. Claro que, numa cadeia alimentar, um elo de baixo forte torna o elo de cima mais forte, mas no caso português o topo é tão reles que só lhe resta enfraquecer o resto da cadeia.

Eu, pessoalmente, tenho pena deles. Embora não me importasse de os ver cozer em lume brando nos caldeirões do Inferno.