quinta-feira, outubro 16, 2003

Acordar

Nunca perceberei quem liga o buzz do despertador ou do telemóvel e salta da cama só com o susto. Ainda mais estranho é um buzz periódico, que equivale à tortura multiplicada e consentida.

Estes segundos devem ser tratados com a mesma cautela com que o mergulhador volta à superfície, lentamente e com um período de descompressão que, no meu caso, dura exactamente meia hora. Essa meia hora alegra-me com as expectativas do dia, e conforta-me das certezas desagradáveis.

Um destes dias comprarei um despertador com MP3, para ter total controlo sobre o som que me acorda. Para já, apenas tenho a alternativa entre o buzz e uma estação de rádio. Mas qual estação de rádio? Difícil escolha! Lembro-me de, há alguns anos atrás, ter testado a Antena 2. Triste ideia! Em vez de vir suavemente à superfície, Mozart mergulhava-me cada vez mais fundo e o peso do cobertor tornava-o impossível de mover. Até que um dia fui selvaticamente acordado pelas Valquírias e andei eléctrico todo o dia (julgava até então que era proibido passar Wagner na rádio antes das oito da manhã).

Desisti da Antena 2 e durante anos deleguei a responsabilidade de me acordar à TSF. Gostava de ouvir os comentadores lá no fundo, e concordava sempre com o que diziam, mas quando chegava à superfície já não me lembrava de nada. Excelente! Mas cansei-me. Cansei-me de ver (ouvir) a minha sagrada meia hora profanada por quantidades crescentes de publicidade, consistindo boa parte dela de diálogos entre mentecaptos.

No último ano ouvi a Antena 1. Não tem publicidade e por vezes começam os noticiários com temas interessantes de cultura e ciência, que não têm nada a ver com a agenda do dia. Isso é bom. Mas, após a alteração da grelha, a minha meia-hora, das 7:30 às 8:00, é quase totalmente ocupada por um jornal de desporto, o que significa que os mentecaptos voltaram por outra via. E isso é mau. Não quero acordar mais cedo nem posso acordar mais tarde, pelo que o meu casamento com a Antena 1 está a terminar.

A partir de segunda-feira vou dar uma oportunidade à Radar. Deve ter alguma publicidade, mas talvez seja suportável. Se falhar, já sei o que vou receber no Natal: um reluzente despertador MP3.