sexta-feira, setembro 19, 2003

Censura Doce, True Lies...

É interessante cruzar este post, sobre os sonhos da Alice, este, sobre a desinformação enquanto peixe, e este, sobre "A Arma da Desinformação". O Desejo Casar, numa ironia agustiada, pergunta-se como podemos não ser felizes (irra, que casmurros e mal-agradecidos!) num país em que os temas de capa dos media se resumem à "nova cor de cabelo de Catarina Furtado" e outros que tais. A A aba de Heisenberg, piscícola, assume que a desconfiança permanente é a melhor posição de defesa contra a desinformação, e conclui que "é angustiante mas não há informação sem suspeita da sua falsidade". Finalmente, o Abrupto, define "desinformação" como uma "mistura cuidadosamente doseada de factos verdadeiros e falsos, de insinuações e meias-verdades com verdades inteiras, tendo como objectivo determinados resultados".

Para complicar um pouco a coisa, proporia os seguintes axiomas:
1. A desinformação é tanto mais eficaz quanto maior for a dose de verdade que incorpora.
Desinformação é ilusionismo. Qualquer mágico rafeiro mostra (quase toda) a verdade ao público, e os resultados são sempre os mesmos, a ilusão nunca se desfaz.

2. A desinformação é tanto mais eficaz quanto maior for a sua capacidade de manipular a relevância dos factos verdadeiros.
Para quê pagar a hábeis doseadores de verdades e mentiras se qualquer estagiário pode encher uma edição de factos irrelevantes, avidamente consumidos?

Antes do 25 de Abril, a censura institucionalizada e o analfabetismo generalizado eram poderosos instrumentos de controle da sociedade pelas elites através do Estado. A massificação do acesso à escola no pós-25 de Abril criou uma nova criatura, que sabe ler e escrever mas não tem referências nem capacidade de análise, confusa quanto a valores a seguir, com ideias bizarras sobre qualidade de vida, paisagem urbana e outros temas menores. Para ela foi elaborada uma "censura doce", em mãos privadas, feita de factos verdadeiros como a cor de cabelo da Catarina Furtado, que nos convence que não há vida para lá das colunas sociais. E se houver? "Isso agora não interessa nada".

Tudo é muito leve (estranho, como as pontes não levantam vôo, em vez de cairem) e nada é para levar realmente a sério. E se a Catarina não mudar de penteado, teremos sempre a segurança diária de que os três-jornais desportivos-três não se esquecerão dos ecos do que o Mourinho disse a semana passada.