terça-feira, dezembro 30, 2003

"Patrulha ideológica": Ciência e Ideologia

O post anterior provocou urticária em algumas pessoas, com reacções alérgicas mais ou menos elegantes, dependendo de cada paciente.

O estilo do post é tão obviamente patrulheiro que - julguei eu, na minha inocência - estava a salvo de quaisquer interpretações literais. Erro meu.

O post fala de uma ferramenta muitíssimo rudimentar de análise de conteúdo, feita em Excel em 10 minutos. Se isto provocou um calafrio ao Aviz, não o aconselho a procurar a palavra "Echelon" no Google.

A análise de conteúdo é um instrumento científico. Não é bom nem mau em si mesmo. Serve tanto para "patrulhamento ideológico" como para a análise da "música na novela camiliana".

Seria interessante, penso eu, perceber na blogosfera portuguesa, quais são os temas dominantes, o conteúdo das opiniões, o modo como se expressam, o sentido da evolução de cada blog. Se tivesse tempo, fá-lo-ia. À civil, de bata branca.

"Não gosto do frio. Não gosto do Inverno". Mas talvez não fosse má ideia que uma brisa mais fresca nos lembrasse que há um glaciar sobre a nossa cabeça.

Espero ter contribuído para que o Aviz diga "não" mais vezes. É uma das mais belas palavras do dicionário.

quarta-feira, dezembro 17, 2003

"Patrulha Ideológica"

A propósito de um post do Aviz, resolvi criar uma pequena macro em Excel (não fazem a mínima ideia do que estou a falar, pois não?) para investigar o que o autor, Francisco José Viegas de seu nome, tem andado a escrever nos últimos tempos. Foi assim que descobri que a palavra com três ou mais letras (exceptuando "que") que esse senhor usa no seu blog é "Não". É verdade! "Não"! 188 vezes desde 1 de Outubro! 1,4% das palavras escritas, quando por lei não poderia ultrapassar 0,5%! C'est très grave, c'est excessivement grave!

Além disso, fala apenas 5 vezes do Glorioso, contra 8 (!) do FC Porto.

Do "futebol" fala 7 vezes, de "Fátima" uma única vez, e "fado", nem rasto.

Esse Senhor Niet da blogosfera precisa ter muito cuidadinho. Cuidadinho e respeitinho.

Voltarei ao assunto (sim, é uma ameaça).

domingo, dezembro 14, 2003

Memória a crédito

Tento imaginar um velho sem memória, uma tábua rasa pontuada aqui e ali por uma morte, um nascimento, uma doença grave. Um velho que existiu, mas sem ser capaz de provar que viveu. Hoje tem setenta anos, ontem tinha vinte. Onde estão esses cinquenta anos? Será que tudo se resumiu a um longo dia de trabalho seguido do empurrar de um carrinho pelos corredores de um hipermercado sem fim?

Que memórias estamos nós a amealhar para o nosso Inverno? Nós, os sem vidas extraordinárias, cuja relação mais séria e duradoura não se chama amor, mas dívida ao banco. Nós, os heróis das mil vidas na Playstation. Nós, os que fazemos de cada dia uma experiência nova (já conhece o novo Sonasol?). Nós, pistoleiros do cartão de crédito, mais rápidos que a própria sombra, incapazes de viver sem franquia. Nós, que nos amamos sem nos conhecermos (sim, temos quatro televisores em casa). Nós, que fazemos da nossa vida uma perpétua delegação da competência de viver. Nós, os da felicidade tabelada ao minuto e promoções de quantidade. Nós, consumidores consumidos no consumo.

Que vamos recordar no nosso Inverno? A paixão com a princesa Carolina em fotos indiscretas? A forma limpinha como aniquilámos todos aqueles invasores extra-terrestres? As piadas em sms? A tralha inútil?

A nossa memória é um extracto de cartão de crédito e souvenirs made in China.

sexta-feira, dezembro 12, 2003

O Signo da Água

Ela a chorar na praia, a chorar por amor, talvez uma espécie de amor, não sei, eu não percebia. Talvez chorasse por mim, por eu não perceber. Estou ali, sentado junto dela, na areia. Não sei o que dizer, o que fazer. Será suposto exprimir alguma emoção? Isto é, para além de pânico? Estou realmente em pânico. Fujo. Fujo para as rochas. E, das rochas, contemplo-me junto dela, as suas lágrimas nas minhas mãos, na minha cara. Ela a chorar, a chuva miudinha a cair, a espuma forte de ondas de maré alta a chegar quase quase aos nossos pés. E o meu coração de adolescente descobre a harmonia universal sob o signo da Água, na fusão daquelas três fontes, e percebe que, em alguns instantes da nossa vida, podemos ser absolutamente felizes.

Ainda guardo um pouco da água desse dia. Nos meus olhos.

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Ovomaltine

Ovomaltine no Pingo Doce! Fica assim demonstrado o imenso poder dos blogs.

Desenrascanço, o que é?

Desenrascanço é a capacidade de formular soluções criativas para problemas que, com competência e/ou planeamento não existiriam em 90% dos casos. É uma qualidade resultante de um defeito, como um assaltante de casas que não estraga a mobília. Só pode ser um bom tipo.

O desenrascanço é um desperdício de recursos, um luxo a que nos permitimos. Mas faz parte do nosso portuguese way of life. Como poderíamos viver sem ele?

Madrid

Acabei de chegar de Madrid. As comparações com Lisboa são inevitáveis. Como já todos as fizemos, não as faço. Poupo a renovação do embaraço.

quarta-feira, dezembro 03, 2003

"This will kill that": o livro como memória vegetal

Embora por vezes discutível, vale a pena ler esta comunicação de Umberto Eco na Biblioteca de Alexandria. Eco aborda o modo como historicamente foram encaradas as novas formas de preservação da memória, o hipertexto e o tema habitual do futuro do livro.

Ignorância urbana

Os portugueses pensam que a sida se apanha com um aperto de mão! Que horror! Como podem ser tão estúpidos? As santinhas choram e o povão vai em romaria? Que pacóvios! As mulheres põem as mamas à janela para serem diagnosticadas pelo satélite? Ahahahah! É de ir às lágrimas...

Deixem-me recordar uma coisa: o principal factor responsável pela redução do analfabetismo em Portugal é a morte. A morte.

Agora deixem-se de merdas e vão à procura dos verdadeiros culpados pela ignorância. Uma pista: follow the money.

[adenda para quem não percebeu: o analfabetismo é elevado nas camadas mais velhas da população, graças ao Dr. Salazar e a outros filhos de Santa Comba Dão. A nossa jovem democracia prefere achar que a alfabetização de adultos é um investimento inútil. Deixá-los por isso morrer para que as estatísticas melhorem. Além disso, estamos muito ocupados a desenvolver a iliteracia universal e tendencialmente gratuita.]

terça-feira, dezembro 02, 2003

A independência enquanto vaca (sagrada, naturalmente)

Detesto ser impertinente, mas tenho uma pequena dúvida: merecemos (nós, portugueses) a independência que temos? Dignificamo-la? Festejamo-la? Ou tratamo-la como amante velha/o que temos vergonha de apresentar aos amigos? Dúvida paralela: por que motivo tudo o que seja, por assim dizer, "festas de memória colectiva" são vistas como parolices? Por que motivo discutimos uma semana um erro de um árbitro e seria embaraçante (e sujeito a forte justificação) sermos vistos em comemorações do 10 de Junho, ou do 1 de Dezembro?

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Independence Day

Oops! Afinal o artigo "Espanha está no caminho de Portugal" era sobre o Euro 2004, e não sobre as relações entre os dois paí­ses.

Desculpem-me. Foi um engano imperdoável. Mas nunca pensei que o Público não tivesse um único artigo sobre o Dia da Independência.

My mistake. Seria um pouco parolo, não é? Vejam os Estados Unidos, por exemplo. Haverá algum jornal americano de referência que ainda mencione o Independence Day? (O quem?)

Somos como aquela velha piada dos computadores: não temos memória, temos uma vaga ideia.

I rest my case. I really need to rest. Love hurts.

Provocações castelhanas

Ora digam lá se não é provocação!?

Vão dizer-me que um camião carregado de produtos espanhóis rebenta com as ruinas que marcavam a fronteira entre Portugal e Espanha exactamente no Dia da Independência e isso é pura coincidência? O tanas!

Cá p'ra mim, é pura gozação de Castela.

O aliado basco

O post Do Portugal Profundo com o mesmo título não tira as devidas consequências das suas premissas.

Arrisco algumas: O Estado espanhol irá implodir a prazo por força das autonomias. Admitindo que apesar de tudo as coisas correm bem, será criada uma espécie de federação de estados com uma significativa redução do peso de Madrid. Nessa altura, será criada a Ibéria, ou Federação Ibérica, e incluirá Portugal, se tivermos bom senso [adenda posterior: não se infira que, neste contexto, bom senso é bom].

1640

- Valeu a pena?
- "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena".
- Precisamente. Valeu a pena?

Ler...

... a longa e excelente reflexão sobre Portugal, os caminhos da independência e as relações com Espanha nas páginas 2 e 3 do Público, "Espanha está no caminho de Portugal".

(desculpem o estilo a la Bloguitica...)